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Recuperação após AVC

As sequelas de um AVC (acidente vascular cerebral) dependem da parte do cérebro afetada, da gravidade da lesão e própria saúde da pessoa quando o AVC acontece. A recuperação pode ou não ser total, mas há três disciplinas verdadeiramente essenciais não só à reabilitação como à prevenção de problemas secundários: a fisioterapia, a terapia ocupacional e a terapia da fala. Fique a conhecer melhor o papel de cada uma delas.

 

 

1- Quais são os principais problemas ou sequelas que decorrem de um AVC e necessitam de intervenção terapêutica?

 

“Embora cada caso seja único, a maioria das pessoas tem problemas motores, sensoriais, de coordenação e muitos apresentam ainda alterações das funções cognitivas como a percepção, atenção, memória, linguagem e funções executivas. A nível funcional apresentam dificuldades em realizar as atividades relacionadas com o seu autocuidado (higiene pessoal, vestir-se, alimentar-se), com a sua profissão, bem como com as atividades de lazer (atividade física, brincar com os filhos, sair com a família, passear, ir às compras).Todas estas áreas são trabalhadas, treinadas e desenvolvidas através de técnicas específicas que podemos usar para potencializar os resultados que pretendemos obter.”

Elisabete Roldão, Terapeuta Ocupacional

 

“A maioria dos AVC’s traduzem-se em alterações motoras e sensoriais que podem significar paralisia ou parésia dos membros, alterações da perceção do esquema corporal e orientação espacial, alterações do tónus, hipoestesia, hiperestesia ou parestesias, assim como alterações da compreensão e expressão.A fisioterapia vai, em primeiro lugar, manter as propriedades e comprimento musculares, proporcionando o alinhamento adequado de todos os segmentos corporais, para depois poder estimular a ação muscular e facilitar padrões de movimento funcionais. Vai também procurar recuperar a sensibilidade dos segmentos afetados, sujeitando-os a vários tipos de estimulação sensorial.Em casos em que a paralisia é mais severa ou o indivíduo se encontra mais debilitado, a fisioterapia vai atuar na prevenção de úlceras de pressão e outras situações relacionadas com a imobilidade, nomeadamente alterações do foro respiratório.Estas condições têm grande impacto na independência funcional do indivíduo, pelo que a fisioterapia deve estimular a sua autonomia através do treino de atividades funcionais básicas, por exemplo, as mudanças de decúbito [posição], as transferências entre assentos, o treino de marcha e a utilização de escadas.”

Vanessa Fonseca, Fisioterapeuta

 

“As principais dificuldades nas quais o terapeuta da fala intervém são a linguagem (afasia), a deglutição (disfagia) e ao nível dos défices motores (disartria). A afasia consiste na dificuldade em compreender e exprimir uma mensagem através da linguagem, a disfagia está presente quando a movimentação do bolo alimentar – desde a cavidade oral até ao estômago – se encontra comprometida e quando a mobilidade dos músculos intervenientes na fala está alterada, estamos perante a disartria.O maior objetivo do terapeuta da fala nestes casos é amenizar as capacidades perdidas, de forma a que pessoa que sofreu o AVC recupere a sua autonomia e aumente a sua funcionalidade nas atividades do quotidiano.Apesar de usualmente se falar mais nas questões ligadas à comunicação, a disfagia é uma problemática que pode afastar a pessoa de momentos de partilha ao nível social, principalmente num país como Portugal, onde se passa bastante tempo a conviver à volta da mesa. Basta lembrarmo-nos que quando uma pessoa se engasga com frequência, não controla a saliva ou não pode saborear as mesmas iguarias que os outros, prefere manter algum afastamento e isolamento desses momentos.”  –

Catarina Olim e Ana Paiva, Terapeutas da Fala

 

 

2- Pode deixar exemplos de técnicas de intervenção e exercícios que ajudem na resolução de alguns problemas comuns?

 

” Podemos usar variadas técnicas como a Facilitação Neuromuscular Propriocetiva, Bobath ou Margaret Johnston, contudo, é o Treino em Atividades de Vida Diária a técnica específica e dominada com perícia pelos terapeutas ocupacionais. Esta técnica obriga-nos a conhecer de forma esmiuçada a atividade, o contexto e a pessoa para podermos analisar, adaptar e treinar a realização de uma tarefa ou atividade de modo a que esta seja desempenhada de forma funcional, eficaz e satisfatória pelo nosso utente habilitando-o assim para a realizar no seu dia-a-dia. O grande objetivo do terapeuta ocupacional é reabilitar ou habilitar para tornar o utente independente e funcional nas atividades que são importantes e significativas para si, para que este possa ser integrado novamente na comunidade voltando a desempenhar os seus papéis anteriores de pai/mãe, marido/mulher, trabalhador(a), amigo(a), filho(a), atleta, ou outros que eventualmente tenha. A intervenção do terapeuta ocupacional em situações pós-AVC deve ser iniciada o mais cedo possível assim que a situação esteja clinicamente estabilizada e o permita.”

Elisabete Roldão, Terapeuta Ocupacional
“Para pacientes que sofram, por exemplo, de hemiplegia, em contexto de sessão de reabilitação os exercícios passam pelo treino de padrões de movimento inseridos em ações funcionais, como a mudança de posição no leito ou o alcance de objetos na posição de sentado. Quando o indivíduo tem essa capacidade, deve ser feito o treino de equilíbrio na posição de pé, estimulando a transferência de peso sobre o membro afetado, treinando-o para receber carga. Cada caso tem as suas especificidades, pelo que os exercícios autónomos só devem ser feitos tendo a certeza de que o indivíduo não irá acentuar padrões patológicos ou recorrer a compensações. Recomenda-se que os exercícios sejam feitos em frente ao espelho de forma a corrigir posturas e garantir que o exercício é executado de forma correta. O ensino destes exercícios deve ser feito na presença de um familiar, de forma a facilitar as correções quando o fisioterapeuta não estiver presente.”

Vanessa Fonseca, Fisioterapeuta

 

“No caso da afasia, a técnica mais recorrente será a nomeação de objetos reais e imagens. Consiste em mostrar ao paciente objetos – e é muito importante que se enquadrem no seu quotidiano para despertar o interesse e ser seja útil – e estimular a nomeação dos mesmos. Podemos, por exemplo, dar uma pista silábica se verificarmos dificuldade do doente em iniciar a palavra (para espelho, por exemplo, dizer “Es…”).No caso de uma disartria, podemos recorrer ao uso do espelho colocando o doente virado para ele para que veja o modelo da terapeuta e possa repetir o exercício facial, enquanto nós auxiliamos com as mãos para que o movimento aconteça ou estimulamos os músculos com “massagens faciais”. Por último, a disfagia trata-se de uma situação mais delicada em que os exercícios devem sempre ser executados por profissionais, pois um erro poderá levar ao engasgamento do paciente ou algo ainda mais grave. Assim, para trabalhar um caso de disfagia devemos estimular e treinar os músculos responsáveis pela deglutição e posteriormente, quando houver controlo sobre esses músculos, podemos treinar a deglutição de líquidos utilizando um espessante para evitar que o líquido “desça rapidamente” e o doente não controle o seu curso acabando por se engasgar. Independentemente das técnicas utilizadas é importante não evitar comunicar com a pessoa por se pensar que ela não compreende, ou falar a gritar por se pensar que não ouve bem. Há que ter o cuidado de diminuir fontes de ruído existentes, falar de frente para a pessoa e promover ambientes comunicativos.”

Catarina Olim e Ana Paiva, Terapeutas da Fala

 

3- Quais são os cuidados gerais básicos que o cuidador de alguém que teve um AVC deve ter em casa?

 

“Antes de mais o processo de alta deve ser trabalhado com antecedência, pois existem várias questões a ter em conta antes de enviar o utente para o domicílio. Por outro lado, e infelizmente, nem todos terão, à data da alta hospitalar, competências, condições e autonomia para poderem voltar ao domicílio havendo alguns que seguem outros caminhos, nomeadamente a Rede Nacional de Cuidados Continuados. De qualquer modo, no domicílio a família deverá estar preparada e informada pelos profissionais de saúde das diversas situações a ter em conta no que diz respeito à medicação, cuidados alimentares e continuidade do processo de reabilitação.

No que diz respeito ao terapeuta ocupacional, este tem aqui um papel fundamental salientando as adaptações que devem ser efetuadas em casa de modo a potencializar o desempenho e a independência destes utentes. Simples mudanças como a redução de tapetes, a eliminação de obstáculos, a colocação de varões de apoio na banheira ou poliban, a colocação de utensílios de uso diário mais ao alcance, pode promover a independência e segurança. Existem, contudo, casos mais complexos para os quais serão necessárias adaptações maiores promovendo a eliminação de degraus com rampas ou elevadores de escada, a adaptação da casa de banho com cadeira ou tábua de banho, ou a utilização de alguns produtos de apoio como tábuas de transferência, cadeiras de rodas, camas elétricas, entre outros.” –

Elisabete Roldão, terapeuta ocupacional
 

 

” A chegada de um indivíduo a casa após um AVC deve ser planeada de forma a adequar o espaço às suas necessidades. A família deve também ser preparada para as dificuldades que podem surgir, nomeadamente, quando as competências relacionais ou de comunicação estão alteradas. Ao nível da comunicação, a família deve utilizar uma linguagem simples, com comandos diretos dando tempo ao indivíduo para responder. Pode ainda ser necessário o recurso a meios alternativos, que são selecionados com o terapeuta da fala.
Ao nível das adaptações do domicílio, podem ser necessária uma cama articulada, uma cadeira sanitária ou de banho, ou mesmo alterar a disposição dos móveis de forma a permitir a deambulação, por exemplo, em cadeira de rodas. Pode ser necessário aplicar pegas nas paredes do WC ou um corrimão nas escadas.
Além disso, a família deve ser ensinada a movimentar e mobilizar o indivíduo de forma adequada, a auxiliar nas mudanças de posição e na transferência entre assentos. Devem ainda ser ensinados a estimular padrões de movimento corretos e a evitar padrões patológicos.
É fundamental que a família não substitua o indivíduo, permitindo-lhe recuperar a autonomia.”

Vanessa Fonseca, fisioterapeuta

 

 

4- Se possível deixar uma pequena descrição de um caso que tenha acompanhado e que tenha tido uma evolução positiva ao longo do trabalho.

 

“Não me posso esquecer de um caso de um militar de cerca de 50 anos com um AVC do qual resultou o seu hemicorpo direito paralisado e apresentando ainda uma afasia de nomeação. A primeira vez que o vi estava na enfermaria, numa cadeira de rodas, e quase não o consegui colocar na posição de pé pois tombava para o lado direito, não conseguindo controlar o corpo nem os movimentos. Foi um processo de intervenção de cerca de um ano durante o qual trabalhamos competências motoras começando pela mobilização, estimulação do movimento, fortalecimento muscular e continuando progressivamente para o treino de coordenação motora, preensões e Atividades de Vida Diária. Recordo-me que, após duas semanas de iniciarmos o treino de grafismo, escreveu um postal para a sua mulher no dia dos namorados que já era legível. Atividades como o vestir/despir, comer de faca e garfo, higiene pessoal, escrever, atender o telemóvel, controlar o comando da televisão e muitas outras estavam inicialmente muito comprometidas sendo completamente dependente de terceiros para as executar. O treino em Atividades de Vida Diária foi implementado e conseguimos atingir plena funcionalidade em todas estas atividades e outras que eram muito importantes para este utente. Teve alta e foi considerado apto para continuar ao serviço das forças armadas. Atualmente já se encontra reformado, dedicando-se à família e amigos e estando ainda a desenvolver um projeto relacionado com o cultivo de ervas aromáticas. É um caso de sucesso, pois conseguimos que retomasse os seus papéis ao nível da família, comunidade e meio profissional de forma autónoma e independente. Infelizmente nem todos são assim pois não depende somente do empenho do utente, da família ou dos profissionais, depende em muito da situação clínica e gravidade da lesão.”

Elisabete Roldão, terapeuta ocupacional

 

 

 

 

 

Fontes:
– Ana Paiva, terapeuta da fala na Arte & Fala
– Catarina Olim, terapeuta da fala na Arte & Fala, presidente da Associação Portuguesa de Terapeutas da Fala
– Elisabete Roldão, terapeuta ocupacional, presidente da APTO – Associação Portuguesa de Terapeutas Ocupacionais
– Vanessa Fonseca, fisioterapeuta na Fisiolar